segunda-feira, 5 de janeiro de 2015


The Curious Case of Benjamin Button. 2008.
Directed by David Fincher.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

11.

A Sarah abriu o The Los Angeles Herald Examiner, e eu comecei a ler o primeiro poema:


«O POETA
eles matam o poeta
eles queimam o poeta
eles ignoram o poeta
eles odeiam o poeta

mas a luz sabe
e o poeta
e as prostitutas
conhecem
a angústia do
poeta
e dão-lha
de graça
lambem-lhe os pêlos
dos tomates em
santa prece
o poeta jamais
morrerá

mesmo na morte
ele senta-se dentro
da lua
e mostra o dedo médio
ao universo!»

- Charles Bukowski, in Hollywood.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Baby Teeth

When you call your husband to tell him you’ve had a miscarriage he’s not going to care. He ripped your body up like a lawn mower chewing grass and your ribs expanded to match the slow outward bulge of your stomach, and he couldn’t care less. Maybe you lost it (and you don’t want to call it “it” but you never named it, paged through all the books and never settled on one, but for lack of a better word you’ve got to call it that) in the bath, or riding the bus or walking to work. Who knows. But wherever it happened, however it happened, that doesn’t change the fact that you lost it.
When you go in for a routine checkup weeks later and the doctors say there’s scar tissue down there, too much to give it another try, you’ve got the pills in the cupboard but you’re too afraid to use them. You start thinking of your body as a sinking ship, going down further every second into the dark waters. There’s the deck and it’s splintered and ragged, every wooden beam pulsating with grief. And somewhere out there in the distance is an iceberg and you’re going to hit it. It’s only a matter of when.
Your husband’s not going to give a fuck about the blood between your legs. You’re drunk on your own pain; he’s drunk on the real stuff. The heart wants to give in. So do the lungs and the kidneys. Even the throat wants to close. You can’t stop thinking about those tiny feet, those fingers that would have wrapped around yours. The whole upstairs attic is still decorated with the crib and the streamers and the lights and stuffed animals. The crib is still empty but your mind fills it in.
Let’s pretend the local museum calls up and wants to know if they can display the bones. Let’s pretend you tell them no.
Let’s pretend they’re already displayed in your heart.



- Meggie C. Royer, in Writings for Winter (blog).

sábado, 4 de janeiro de 2014

A Outra Coisa

30 de Novembro

    Chega o momento em que me perco, em que tenho medo de mim mesmo, em que me atemoriza o som da minha própria voz. Quem sou eu? Os outros? São os outros? São eles que falam, que ordenam, que me impelem? Eu sou os mortos! Eu sou os mortos! Eu sou uma série de fantasmas, que se açulam entre mim e mim. Reconheço-os. O gesto esboçado há milhares de anos, e perdido, consumido, consegue hoje realizar-se, o gesto que a morte calou numa boca ignorada, faz eco no mundo. Todos os sonhos são realidades, os mais altos, os mais humildes, os mais belos e os mais grotescos. Só os sonhos são realidade nesta noite quieta e caiada, com uma mancha vermelha de pólo a pólo.
   (...)
    A morte faz estremecer o mundo até à raiz. A morte já não tem a mesma significação. A morte é agora inútil e anda à solta no infinito, desgrenhada, dorida e dourada. Desespera-se. Tenho medo de lhe tocar. O drama que se passa em cima é maior que o que se passa em baixo. É pior este tumulto de inferno, este clamor de que não chegam as vozes, esta força incoerente de pé - todas as forças de pé - posta a caminho para o desconhecido. É pior. E a cada grito em baixo corresponde um grito em cima.
    Reconheço o grito que sai da noite. São os vivos e os mortos... Mas então que significação tem isto no Universo, a dizer palavras inúteis no meio desta balbúrdia, desta escuridão cerrada, deste dourado feroz, deste redemoinho sem nome? Para que é que eu existo e tu existes? Para que é que eu grito e tu gritas? Isto não és tu! Isto não sou eu! Isto é a vida temerosa, de que não representas senão uma insignificante partícula. Tu não és nada, a vida é tudo. O combate é incessante entre os vivos e os mortos, entre os mortos e os vivos. Todos gritam aos mesmo tempo, todos caminham ao mesmo tempo para o mesmo fim esplêndido. - Oh, eu quero crer! - Por que é que gritas? - Fecha os olhos! Fecha os olhos! - Agora sou eu quem falo! Agora são eles que falam!...
    Oh, minha alma, pois eras tu! Agora te reconheço! Capaz de tudo, capaz de baixezas e capaz de sacrifícios. Tão pequena! Tão transida! Não vales nada e pudeste tanto! Oh, minha alma, pois eras tu, eras tu! Pudeste arcar com o Universo, olhar Deus, construir Deus. Devo-te tudo: a ilusão, a tinta do céu, o sonho errático das vastas florestas. Eras tu! Eras tu!... Tem-me custado a dar contigo, tão mesquinha e capaz de povoares o céu de estrelas e o mundo de sonho. Atreves-te a tudo. Afirmaste. Negaste. Eras tu, sempre dorida, sempre ansiosa, nunca satisfeita, e coubeste dentro de quatro paredes. Tornaste-me a vida amarga. Encheste-me de ridículo. Atiraste-me aos encontrões contra a massa cega e compacta, levaste-me como restos de folhas nesta procela de sonho. Foste a melhor e a pior parte do meu ser.


- Raul Brandão, in Húmus.

terça-feira, 30 de abril de 2013

VI

    Ah, principezinho! Assim fui conhecendo, aos poucos, a tua melancólica vidinha! Durante muito tempo, a tua única distracção foi a beleza dos crepúsculos. Fiquei a sabê-lo na manhã do quarto dia, quando me disseste:
- Gosto muito dos pores-do-sol. Vamos ver um pôr-do-sol...
- Mas primeiro temos de esperar...
- Esperar por quê?
- Esperar que o Sol se ponha.
    Começaste por ficar espantado, mas, depois, riste de ti próprio. E disseste-me:
- Ainda julgo que estou no meu sítio...
    Pois é. Quando os relógios marcam meio-dia nos Estados-Unidos, toda a gente sabe que o Sol se está a pôr em França. Bastava poder chegar a França num minuto para se assistir ao pôr-do-sol. Mas, infelizmente, a França fica longe de mais. No teu planeta pequenino só precisavas de empurrar a cadeira. E vias quantos crepúsculos quisesses...
- Um dia vi o Sol pôr-se quarenta e quatro vezes!
    E pouco depois, acrescentaste:
- Sabes... quando se está muito, muito triste, é bom ver o pôr-do-sol...
- E no dia das quarenta e três vezes estavas assim tão triste?
    Mas o principezinho não respondeu.


- Antoine de Saint-Exupéry, in O Principezinho.

domingo, 14 de abril de 2013

O Relógio

    Na mesa de escrever o relógio do meu bisavô. É uma ferradura vertical, de metal doirado, sobre um rectângulo de mármore. No topo da ferradura uma cabeça de cavalo. O freio do cavalo forma um ângulo, em anzol para diante, que segura o relógio esférico, de metal doirado também, com um vidro convexo. O meu bisavô era médico e o relógio ter-lhe-á sido dado por um doente agradecido. Até à sua morte o meu avô, seu genro, teve-o sempre na secretária dele. Agora está aqui comigo, à minha frente, dando horas com mais de um século. Do meu bisavô conheço retratos, meia dúzia de episódios, alguns artigos científicos. Doente de cancro suicidou-se com um tiro na cabeça em mil novecentos e dezoito. Andava pelos cinquenta e cinco anos, chamava-se Alfredo dos Santos Figueiredo, e o meu pai conta que se lembra de lhe pegarem ao colo para que beijasse o cadáver no caixão. O meu bisavô parou. Os ponteiros do relógio não pararam nunca. Há-de chegar o momento em que eu pare. Os ponteiros do relógio continuarão a mover-se. No freio em anzol uma chave dupla: a ponta mais grossa dá corda ao mecanismo, a mais estreita acerta os ponteiros. Onze e seis neste momento. De um dia meu? De um dia do meu bisavô? Que marcariam os ponteiros ao encostar as pistolas às têmporas, dado que se matou com uma arma em cada mão? Parece que foi ao fim da tarde. Ou ao fim da manhã? Sou neto da sua única filha e dizem que me pareço fisicamente com ele. Qual de nós escreve isto? Ia de carruagem visitar os pacientes, dava consultas na farmácia que à época se grafava Pharmacia. Cinquenta e cinco anos: praticamente a minha idade agora. Como lhe chamaria se viesse aqui? Senhor doutor? Bisavô? Nada? Se, por exemplo, a sua palma no meu ombro a perguntar-me
- Tu quem és?
    responder
- O seu bisneto
    responder
- O neto da sua filha Eva
    ou ficar calado a olhar a sua cara séria, triste, a cara dos retratos em que nunca sorri? Olho o relógio que deve ter olhado muitas vezes, penso nas feições atribuladas e graves. Nem os braços lhe conheço: para baixo do início do peito a fotografia acaba e ele não existe. Nenhum de nós se calhar existe mas existe o relógio. Onze e dezoito da noite e os meus dedos na ferradura, no cavalo. Onde param os dele? Perguntas e perguntas, a janela aberta e as árvores iluminadas pelos candeeiros em baixo. O sossego dos ramos, o mistério dos ramos, folhas que brilham. Estou sozinho aqui, nesta mesa muito alta, com um banco muito alto, em que posso escrever de pé. Gosto de escrever de pé. O neto que obrigaram a beijá-lo e conserva desse episódio uma impressão horrorizada é um homem velho agora, a quem a saúde se está a acabar. Dá ideia de ir ficando deserto por dentro, no interior das feições devastadas. O relógio onze e vinte e seis, intacto. A esfera de metal doirado balança a uma leve pressão do mindinho. Anda uma espécie de angústia nesta crónica, um aperto no coração do coração. Por qual de nós? As folhas brilham mais neste momento. A esferográfica hesita, continua. As frases juntam-se sozinhas, não precisam de mim. Tantas coisas que não sei. Gostava de o ter conhecido, gostava de ter gostado de si. Chamo-me António como o seu genro, faço livros, existem ocasiões em que me sinto aflitíssimo. Vou aprendendo a disfarçar. Sou capaz? Não sou capaz? Hoje temos a mesma idade, senhor. Quem ficar um dia com o relógio pensará na gente? De que nos servirá no caso de pensar na gente? À falta de melhor espero que o relógio seja eterno. Engraçado sentir-me assim comovido. Em nome de quê? Duas pistolas. Só a do lado esquerdo disparou. A carta em que pedia desculpa por matar-se pingada do seu sangue, a caligrafia que se ia tornando incompreensível, rabiscos para o fim. Seus? Meus? Estou em Benfica onde você se suicidou. Outra Benfica. O que, da sua, me resta na memória, dói-me. Então vem-me à ideia o sorriso da minha tia Bia e  sorrio também. Por amor dela. E um pouco, por estranho que pareça, por amor de si. Onze e quarenta e quatro. Por amor de nós. Como o sangue que não ficou na carta segue nas minhas veias, de certeza que por amor de nós.

- António Lobo Antunes, in Terceiro Livro de Crónicas.


~ Para si, avô. Como o sangue que não ficou na carta segue nas minhas veias, de certeza que por amor de nós. ~

domingo, 10 de fevereiro de 2013

XV

    A porta aberta era para Heathcliff uma coisa demasiado tentadora para que resistisse a entrar; provavelmente havia suposto que eu me esquivara ao prometido e resolvera confiar na sua audácia. Catherine olhou aflita para a porta do quarto. O intruso não descobriu à primeira aquela que procurava, e então Catherine, com um gesto, indicou-me que o devia ajudar; mas antes que me desempenhasse da incumbência já ele aparecia ao limiar e, com duas passadas, estava junto dela e a tomava nos braços.
    Heathcliff, por cinco minutos, não falou nem a largou, e durante esse tempo deu-lhe mais beijos do que lhe dera em toda a vida, julgo eu. Mas foi Catherine quem o beijou primeiro, e vi claramente que ele nem ânimo tinha de lhe olhar para a cara. Desde o primeiro instante convencera-se, tal como eu, de que não havia cura possível, que ela estava condenada a morrer.
- Oh, Cathy! Oh, minha vida, como poderei suportar isto? - eis as primeiras palavras que ele proferiu, e num tom que denotava bem o seu desespero. E então fixou-a com tal ardor que pensei que a própria intensidade desse olhar lhe faria arrasar os olhos de água; mas a angústia queimava-os secando-lhe as lágrimas.
- Que é isso? - disse Catherine, inclinando-se para trás e fixando-o também de cenho subitamente carregado: o seu humor era um catavento, variando sempre ao sabor dos seus caprichos. - Tu e o Edgar destroçaram-me o coração, Heathcliff, e agora vens lamentar-te junto de mim como se fosses tu quem merece compaixão. Não tenho pena de ti! Mataste-me... e estás florescente! Que ar saudável! Quantos anos pensas viver depois da minha morte
    Heathcliff, que pusera um joelho em terra para a abraçar, tentou erguer-se, mas ela agarrou-o pelo cabelo e manteve-o na mesma posição.
- Oxalá pudesse prender-te aqui até morrermos ambos - disse ela amargamente. - Não me importaria que sofresses. Não me afligem nada os teus sentimentos. Por que não haverias de sofrer? Eu sofro tanto! Esquecer-me-ás? Serás feliz quando eu estiver debaixo da terra? Dirás daqui a vinte anos: «Eis a sepultura de Catherine Earnshaw. Amei-a há muito tempo, e desgostou-me perdê-la. Mas isso já passou. Desde então já amei muitas outras. Os meus filhos são-me mais queridos do que ela foi, e, quando chegar a minha hora, terei mais pena de os deixar do que alegria em reencontrá-la.» É isto que vais dizer, Heathcliff?
- Não me tortures para que eu não enlouqueça como tu! - bradou ele, sacudindo a cabeça para se libertar e rangendo os dentes.
    Aqueles dois, para um espectador desinteressado, formavam um quadro estranho e terrível. Bem podia Catherine considerar que o céu seria para ela a terra do exílio, a menos que, com os seus despojos mortais, perdesse também o seu carácter. Mostrava agora, no rosto lívido, uma feroz ânsia de vingança, assim como nos lábios sem cor e nos olhos cintilantes. Nos dedos fechados conservara uns poucos de cabelos que arrancara. Quanto ao companheiro, enquanto com uma das mãos se levantava, segurava-lhe com a outra o braço, e com tal falta de consideração pelo estado dela que, ao largá-la, vi quatro nódoas vermelhas na pele branca.
- Deves estar possessa do demónio! - exclamou ele em tom selvático - para me falares dessa maneira à beira da morte. Não vês que todas essas palavras me ficarão marcadas a ferro na memória, e cada vez mais fundas com o decorrer do tempo? Bem sabes que mentes ao dizer que te matei, e sabes também, Catherine, que mais depressa me esquecerei de mim do que de ti. Não basta ao teu diabólico egoísmo que, quando descansares em paz, eu me contorça nos tormentos do Inferno?
- Não descansarei em paz! - volveu ela, gemendo e retomando a sensação da sua fraqueza física pelas pancadas violentas e desiguais do seu coração, que batia visível e audivelmente sob aquela agitação excessiva. Não disse mais nada até que o paroxismo lhe passasse. Então, com mais brandura, prosseguiu: - Não te desejo, Heathcliff, maior tormento do que o que sofro. Só quero que nunca nos separemos. E se um dia alguma das minhas palavras te angustiar, pensa que eu sinto a mesma angústia debaixo da terra e, por amor de mim, perdoa-me! Aproxima-te e torna a ajoelhar. Nunca na tua vida me fizeste mal. Se alimentas contra mim algum rancor, isso será pior recordação do que as minhas palavras desabridas. Não queres aproximar-te? Anda cá!
[...]
   Os olhos muito abertos, e finalmente humedecidos, pousaram-se sobre ela num arrebatamento. O peito arfava-lhe de maneira convulsiva. E aqueles dois seres, que estavam afastados um do outro, num instante se juntaram. Catherine deu um salto e ele amparou-a, fechando-a num abraço do qual julguei que a minha senhora não sairia viva; de facto, tive a impressão de que ela estava inerte.
[...]
    Catherine fez um movimento, o que me sossegou mais o espírito. Ergueu a mão para enlaçar o pescoço de Heathcliff e aproximar o rosto do seu. Entretanto, ele enchia-a de carícias frenéticas, dizendo em tom desvairado:
- Provas-me agora como tens sido cruel... cruel e falsa. Por que me desprezaste? Por que atraiçoaste o teu próprio coração, Cathy? Não tenho uma só palavra para te consolar. Mereces isto. Mataste-me. Sim, podes beijar-me e chorar e arrancar-me beijos e lágrimas, mas eles queimar-te-ão... tornar-te-ão amaldiçoada. Amavas-me... então que direito tinhas de me deixar? Que direito? Responde! Pelo simples capricho que sentias pelo Linton? Porque nem a dor, nem a degradação, nem a morte, nem nada que Deus ou Satanás pudesse infligir-nos conseguiria separar-nos... Mas tu fizeste-o, por tua livre vontade! Não te despedacei o coração; tu própria é que o despedaçaste e, com isso, despedaçaste o meu. Tanto pior para mim se sou saudável! Preciso de viver? Que espécie de vida será quando tu... oh, meu Deus! Quererias tu viver com a alma num túmulo?
- Deixa... deixa-me em paz! -suplicou Catherine entre soluços. - Se procedi mal, morro pelo que fiz. Acho que basta! Também me abandonaste, mas não te censuro. Perdoo-te. Perdoa-me igualmente.
- É difícil perdoar, vendo esses olhos, sentindo os ossos dessas mãos quase à flor da pele - respondeu Heathcliff. - Beija-me outra vez e não me deixes ver os teus olhos. Perdoo o que me fizeste. Amo o meu assassino... mas o teu, como posso perdoar-lhe?

- Emily Brontë, in O Monte dos Vendavais.